
A data de 9 de Julho de 2011 foi marcada para a realização da 6ª Marcha do Orgulho do Porto (MOP) e da festa Porto Pride. No entanto, os eventos estão envolvidos numa polémica vinda agora a público pela associação CASA - Centro Avançado de Sexualidades e Afectos.
Num comunicado de quatro páginas, a que o dezanove teve acesso, a CASA acusa a comissão organizadora da Marcha do Porto de falta de “existência legal e que exibe uma total desorganização a nível de funcionamento”.
A CASA, que participou na Marcha do Orgulho LGBT no Porto em 2010, refere ter dado então como sugestão incluir a bares na organização da mesma, e esta ter sido liminarmente recusada com o argumento desta ser uma “cedência aos interesses capitalistas”. No entanto, como existem na referida comissão organizadora estruturas empresariais com fins lucrativos, a CASA sustenta que “não se pode ser, como é óbvio, em simultâneo, organizador da MOP e do Porto Pride”. Recorde-se que a festa Porto Pride é organizada pelo site PortugalGay.pt e pelo Bar Boys r Us, naquela que é a mais antiga comemoração do Orgulho LGBT no Porto. A festa tem vindo a realizar-se nos últimos anos no Teatro Sá da Bandeira e implica o pagamento de uma entrada.
A associação presidida por Manuel Damas diz que os membros da CASA que participaram nas reuniões da comissão organizadora em 2010 foram alvo de “diversos insultos, verbais e escritos, de tentativas de pressão e de chantagem assim como de ameaças de agressão física, inclusive por escrito”.
Mas as acusações vão mais longe e põem em causa a parte financeira da Marcha do Porto. “Foram pedidos donativos a empresas comerciais, supostamente para financiar a MOP que, depois, eram depositados numa conta bancária individual e só daí eram transferidos para a conta bancária da MOP, sem qualquer tipo de transparência ou possibilidade de controlo dos montantes recebidos. À MOP apenas eram fornecidos os comprovativos das transferências finais.”

Lucros do Porto Pride vão para “um empresário em nome individual”
A CASA aponta o dedo ao facto de a Marcha e do Porto Pride, “festa organizada e cujos lucros revertem para um empresário em nome individual” terem a mesma data e defende que “os dois eventos têm que ser separados pela asfixia que causa à visibilidade política da Marcha” e pela “promiscuidade nebulosa que gera em termos de angariação de donativos” porque como explica a CASA, “uma parte daqueles que participam no Porto Pride fazem-no como forma de ajudarem financeiramente a MOP não sabendo […] que apenas estão a contribuir para o bem-estar financeiro de um empresário em nome individual”. E não fica por aqui, a associação aponta o dedo à organização da MOP por não “tentar esclarecer publicamente esta questão”. Por último, segundo a CASA, o “facto do Porto Pride oferecer a uma qualquer entidade, um donativo menor, apenas um ano após a realização da festa levanta diversas questões nebulosas às quais a MOP é, indevidamente associada” e relembra que “o Porto Pride anunciou, durante o evento [de 2010 no Teatro Sá da Bandeira], sem que as entradas tivessem terminado, que o donativo a dar em 2011 seria menor, o que levantou diversas questões e dúvidas relativamente à forma como a questão financeira estaria a ser gerida”
A associação portuense acrescenta que tentou participar nas reuniões da comissão organizadora da edição de 2011 da MOP, mas agora recusa-se a “pactuar com o lamaçal obscuro“.
Em 2010 a CASA e o bar Pride organizaram uma outra festa, o Love Pride, no Teatro Sá da Bandeira. A primeira edição deste evento decorreu uma semana antes do Porto Pride.
Pela primeira vez em Portugal, o movimento LGBT poderia ter tido 4 fins de semana num ano a falar sobre questões LGBT de a MOP fosse separada do Porto Pride. (se contarmos com os seguintes eventos, Marcha de Lisboa, Arrail Pride, Marcha no Porto e Porto Pride). Seriam 4 fins de semana a chegar pela imprensa aos cantos mais homofónicos deste País.
Para alem disso a MOP esta inevitavelmente ligada (isto porque à quem assim o queira) a um evento de carácter empresarial que é, com toda a legitimidade, o Porto Pride. Mas não podemos continuar a aceitar que de referencie o dia da MOP como o dia do Porto Pride (a nível de imprensa é mais fácil escrever Porto Pride do que Marcha do Orgulho LGBT no Porto). A Marcha tem de conseguir criar a sua própria identidade.
Por fim, 3 dados importantes e que faltam referenciar:
- Neste momento não existe na MOP nenhuma associação formal que trabalhe nas questões LGBT (nem ILGA nem Rede Ex Aequo). Havia a CASA, que trabalha (e muito) a questão. Talvez seja bom questionar isso.
- A CASA foi a associação que levou a maior delegação presente na MOP do ano passado. Relembro que a CASA existe à menos de 2 anos.
- Por fim, corrigindo um erro na noticia, o Love Pride não foi organizado pelo Pride Bar e a CASA. Foi organizado pelo Porto Pride com a colaboração da CASA. Tal facto pode ser confirmado a partir da consulta do registo da Marca Love Pride, que se encontra no nome da empresa que detém o Pride Bar.
Existe ainda muito por dizer e denunciar, obrigado ao dezanove por ajudar a desmascarar esta profunda promisquidade entre a MOP e o Porto Pride que já levou muitos a sair da organização. Incluindo eu mesmo que estava na organização desde os meus 15 anos.